domingo, 2 de março de 2008

"GRANDES E PSICODÉLICAS BOLACHAS"


‘Certa feita’ um colega, olhando para minha coleção de discos de vinil, tentou me provar como eu era de-modè e enumerou todas as vantagens e facilidades do CD. No momento não tive presença de espírito nem motivação para explicar qual é a pira do lance mas ontem, após um Rivotril(único ácido que estava disponível), um Syd Barret na ‘vitrola’ e extasiado com algumas tantas maravilhosas CAPAS de vinís inacreditáveis, lembrei-me deste colega e tive vontade de ligar e encher seus ouvidos, no entanto o que fiz foi discursar pateticamente sozinho e exorcizar todos os que são praticamente um ‘anti-ácido’em forma de gente:

Quando a sociedade era cinzenta existia um oásis colorido. Flores, muitas flores, roupas berrantes, cores, punhados de lisergia, cogumelos, peiote, LSD, Marijuana, o diabo, tua vó, ayhuasca...neste ‘Shangrilá’, só havia uma raça : os ‘malucos’ de cabelos compridos, barbas mal feitas, pensamentos indomáveis, jeans desbotados, bordados, roupas usadas, batas indianas, vestidos e saias compridas. Apesar das nuvens cinzas da ditadura, dos caretas e dos enlatados; a liberdade em grandes doses rechaçava a repressão deixando um perfume de Patchouli e uma única e real lei ditando o caminho: “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”!
A música, que é a“...mais feminina e perfeita de todas as artes!”(Hermann Hesse), envolta nesta atmosfera etérea de paz, amor, guitarras de Hendrix, tons de Joplin, acordes psicodélicos e dissonantes do Pink Floyd, Cítaras de Ravi Shankar e Beatles, Mutantes, Raulzito, Zeppelin, Jethro Tull, The Who, The Doors...etc... misturava-se com as
Religiões Orientais e a liberação sexual completando este caldo bem temperado ou melhor, ácido – “inquietante vontade de transcendência!”(Henrique Guebur).
Pense nisso tudo concentrado, feito em acetato e tomando forma de vinil. Deixe maturando por pelo menos trinta anos, até uma nova geração resgatar o bolachão e exigir explicações para tentar entender o que saiu dali e qual a importância e o peso ideológico da obra de arte que, no mínimo, a CAPA significa. As boas histórias são o que valem e as lembranças dessa época brilhante e colorida ficarão gravadas para sempre nas ranhuras do disco, mas alguns amigos teus infelizmente não vão entender... Tudo bem, não se desespere, até um ‘danoninho’ é mais acidulado que alguns...
Não vivemos a experiência mas a colocamos debaixo de nossa língua e depois a tragamos. Nós temos lactobacilos vivos na memória e vimos o ‘circo pegar fogo’ dentro de nosso próprio cérebro!

João König

6 comentários:

Rafael disse...

Os discos de vinil são exemplos dessas peças-relicários que contem pedaços vivos de santos e santas e demonios que já desencarnaram, mas que continuam movendo legiões de peregrinos.
São peças de poder, chaves para as regiõs das sombras, lugares que não saõ nem aqui nem acolá.
Quem conhece desses artefatos a beleza e propriedades então conhece segredos.
Belíssimo texto, João.

Amyitis disse...

nossa João, vc me assusta de vez em quando.

Dr.SYD disse...

...obrigado camarada Shossig!
Seu coment valorizou e arrematou sensacionalmente o texto!

...as vezes eu consigo, Amyitis!

Glauber disse...

Eu não tenho medo do João... Tenho medo da coleção de discos dele...

Zaratustra disse...

como comparar aos cds? mp3? um espaço no seu pentdrive?

baita texto

Sujeito da camisa listrada disse...

Todoas as cores e outras mais procriando flores astrais. Muito Bom!