Na história da filosofia, Sócrates foi o responsável por uma guinada de 180 graus na maneira de pensar o mundo. Enquanto os filósofos anteriores (chamados, inclusive, de “pré-socráticos”) tentaram entender a lógica do mundo filosofando sobre a natureza em completo, Sócrates defendeu a idéia de que o ser humano constituía uma unidade que deveria ser pensada em separado do resto dos elementos sensíveis. Não foi muito bem compreendido pelo mainstream, mas era adorado pelos jovens que se aglomeravam para ouvir seus famosos “discursos” e “diálogos”, pelo que acabou sendo condenado à morte, por subverter a juventude. Apesar de não ter deixado nada escrito, inaugurou, assim, a chamada “filosofia do ser”, que deu as bases fundamentais do desenvolvimento da filosofia de seu mais ilustre discípulo, Platão; cujo nome, na realidade, era Aristófanes, rezando a lenda que recebeu a alcunha de Platão – que vem de platos:amplitude, largueza – em virtude da grande extensão de sua testa, ou, em outras palavras, porque desde jovem sofria com os problemas da calvície. Mas não é a careca do Platão que nos interessa, mas sim o fato de que ele é considerado o “inventor da metafísica”, o que fica um pouco difícil de explicar aqui em poucas palavras. Mas o que se pode dizer é que todo mundo, mesmo que não saiba disso, raciocina em termos platônicos. Além disso, nosso amigo careca foi mestre de um outro rapazinho muito esperto, um tal de Aristóteles, que além de ter escrito sobre tudo um pouco, foi o responsável pela primeira sistematização do saber Ocidental, criando as bases de todas as ciências, da matemática a medicina. Assim, quem foi mais importante, Sócrates, Platão ou Aristóteles? Difícil responder, mas o inquestionável é que Aristóteles não teria ido tão longe nas suas elucubrações mentais sem a base filosófica Platônica; tampouco teria podido o calvo Platão ter ido tão longe nas suas elucubrações mentais sem a base filosófica Socrática. Enfim, todos juntos, formam a “Santíssima Trindade” da filosofia. E depois deles, ninguém mais se lembrava em como era pensar o mundo sem conceber o ser humano como “centro” do pensar filosófico.
Mas, e daí? O que é que temos nós a ver com isso?
E daí que numa mórbida província, em uma época em que todos estavam acostumados a pensar a gandaia como uma coisa só, restrita às estanques fronteiras musicais do pagode e do axé, aparece uma turba meio “confusa”, de início mal compreendida pelo mainstream. Assim como a filosofia, que encontrou terreno fértil primeiro nas colônias gregas afastadas, e gradativamente foi se chegando à Acrópole, nossa turba, já com alguns seguidores, iniciou sua pregação numa bodega lá no meio do mato, e, gradativamente foi se chegando à praça da matriz. Assim como Sócrates gerou seguidores, esta turba acabou gerando seguidores, alguns inclusive abandonando suas concepções filosófico-musicais heavy metal pré-socráticas.
Enfim, chegamos ao X da questão: não interessa saber quem foi mais importante, Sócrates Platão ou Aristóteles, mas sim o fato de que o legado que deixaram influenciou todos os pensadores que vieram depois deles, ainda que a difusão da filosofia tenha custado a morte de Sócrates. De mesma forma, não interessa saber quais dos seguidores ou dissidentes daquela turba “confusa” que chacoalhava o cabelo (ou a careca) é mais importante, ainda que a difusão da “boa nova” (que de nova não tem nada) tenha custado a “morte” da primeira formação que se reunia aos domingos na beira do rio e tocava aos sabiás lá pra frente do morro dos padres . O que interessa é o fato de que ninguém mais na mórbida província concebe a gandaia restrita às fronteiras estanques do pagode e do axé. Pelo contrário, no último fim de semana, para desespero dos “pré-socráticos” ou “pré-confusos”, quem saiu às ruas em busca do conforto etílico noturno deparou-se com uma enxurrada de rock´n´roll de primeiríssima qualidade. A completa rendição do mainstream, e prova viva de que nossa mórbida província é, de fato, a Meca do rock´n´roll.
Maravilha, maravilha!!!